BLOG | Liz Motta


09 de novembro de 2009
CAÇA AS BRUXAS

Clique na imagem para ampliar Atenção! Atenção! Preparem suas tochas, tragam paus e madeiras, não esqueçam os chicotes, água benta e todos os instrumentos de tortura que vocês tiverem guardados no fundo do guarda-roupa. Está aberta a temporada de caça as bruxas.
O primeiro pontapé já foi dado pela UNIBAN,, instituição "dita" de ensino superior localizada em São Bernardo do Campo, interior paulista.
No dia 22 de outubro a aluna, do curso de Turismo, Geyse Arruda foi a faculdade como fazia todos os dias, usava um vestido curto na cor rosa que valorizava seu corpo e, quem sabe, o tom loiro dos seus cabelos longos. Em pouco tempo Geyse começou a ouvir gracejos e elogios, mas rapidamente as palavras começaram a mudar. Entre gritos de prostituta, puta, vadia e vagabunda, Geyse se viu acuada em uma sala. Do lado de fora a fogueira já estava ardendo. Alunos e, pasmem, alunas faziam o papel de inquisidores esperando apenas que a bruxa vacilasse e saísse do seu esconderijo para que pudessem linchá-la fisicamente. Sim, fisicamente, porque verbalmente e moralmente não havia mais o que destruir.
A bruxa Geyse saiu do seu esconderijo escoltada por policiais; massacrada e vilipendiada só lhe restou o silêncio em meio ao burburinho dos/as seus/suas colegas. A UNIBAN, como espaço privilegiado do saber, fez o sentido inverso que qualquer escola - por mais chula e medíocre que seja - poderia fazer: expulsou a garota. Em nome da moral e dos bons costumes a UNIBAN ratificou a postura dos seus alunos inquidores. Loira e de mini vestido nos bancos universitários da UNIBAN? Nem pensar. Universidade é lugar de conhecimento e não de liberdade, ops!, libertinagem.
Em tempos de sexting, bullying e afins, a violência sofrida por Geyse toma uma dimensão maior em termos de violência por se tratar de assédio moral por conta do fator gênero, desta infeliz construção cultural e social que arbitra o que pode ou não pode, o que é certo ou não quando se trata de mulher.
A nossa sociedade é "pseudo" moralista e desumana. Em cada esquina encontramos fogueiras acesas à espera de Geyses que ousem ultrapassar os limites impostos pelo machismo atávico e Instituições, como a UNIBAN, para corroborar atitudes que, no mínimo, são patéticas. Não vai demorar para ambulantes venderem nas portas das universidades, shoppings, igrejas e clubes estacas de madeira e fósforos a um real cada, com o slogan: compre seu kit anti-bruxa - queime uma vadia.
Parabéns UNIBAN. Parabéns acadêmicos/as. Vocês deram um passo para trás no processo civilizatório da humanidade.


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23 de setembro de 2009
Rede Globo e Você (Mulher), Nada a Ver.

Clique na imagem para ampliar Ontem a noite, me preparei para assistir ao programa Profissão Repórter da Rede Globo. O tema me interessava bastante: violência contra a mulher. De início achei estranho o termo "casais" nas chamadas, pensei que a reportagem trataria da violência doméstica contra mulher, mas daí pensei que a emissora não queria ser sensacionalista ou apelativa e portanto preferiu empregar o temo "casais" para ser mais democrática e abarcar não só mulheres, mas homens também em sua audiência.
Qual foi minha surpresa e decepção quando nos primeiros minutos aparece o caso de um homem assassinado pela companheira e logo depois o depoimento de outros homens contando que já apanharam de suas companheiras e esposas. Obviamente existe violência doméstica contra homens, mas o número é infinitamente insignificante se comparado aos índices de violência contra à mulher. Em relação a estas, posso afirmar que o programa foi, no mínimo, raso limitando-se a colher depoimentos das vítimas nas delegacias. Me pergunto qual o objetivo do programa Profissão Repórter? Um estágio supervisionado para os futuros repórteres e jornalistas globais sob a batuta do impermeável Caco Barcelos? Fala sério. A Rede Globo perdeu (e como perdeu) uma boa oportunidade para denunciar a violência contra à mulher pelo prisma jornalístico, responsável e coerente que muitas vezes sabe fazer em outras temáticas.
Perdeu a oportunidade, volto a dizer, em denunciar - por exemplo - o caso Pimenta Neves (réu confesso), aquele que matou a jornalista Sandra Gomide em agosto de 2000 e ainda não cumpriu sua pena, não está preso e vive confortavelmente em um bairro paulistano tomando cerveja nos finais de semana com amiguinhos e gozando de duas aposentadorias.
Os advogados de Pimenta Neves vivem apelando na Justiça para que este assassino fique em liberdade sob a alegação da tese do "princípio da presunção da inocência". Segundo esta tese ninguém é considerado culpado até que todos os recursos da defesa sejam julgados e esgotados.
Tudo bem, a Globo mostrou um pouco da realidade nas DEAMs e citou vez ou outra a Lei Maria da Penha. Podia ter feito mais, muito mais.
Imagino quantos casais estavam na frente da tv ontem a noite e quantos agressores se voltaram para suas mulheres e falaram: tá vendo, mulher também bate, homem também apanha.
No programa a história de Zico, o rapaz assassinado, traz uma pessoa boníssima, amiga, parceira de futebol, um lavador de carros gente boa e camarada. Mas, felizmente, a companheira que o matou pode revelar o quanto sofreu na mão do jogador de futebol camarada. Claro que isso não justifica em nenhuma instância o crime que ela cometeu, mas serve para que entendamos que, na maioria das vezes, o agressor tem um comportamento na comunidade e outro dentro de casa. Fica aí a reflexão.
Infelizmente, a Rede Globo continua com seus programas engessados e sem fôlego, mostrando um desserviço às mulheres e apenas pincelando um cenário já marcado pelo sangue das mulheres agredidas e assassinadas.
O lema global deveria mudar de Globo e você, tudo a ver, para Globo e a mulher, nada a ver. Lamentável.

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07 de agosto de 2009
A Lei Maria da Penha Completa 3 Anos.

Clique na imagem para ampliar Há exatamente 3 anos o Presidente da República, Luis Inácio "Lula" da Silva, sancionou a Lei 11.340/06, mais conhecida por Lei Maria da Penha. A inclusão desta lei na jurisprudência brasileira foi um"plus" na longa batalha que as feministas e demais grupos de mulheres da sociedade civil vem travando contra a violência à mulher. A partir de 07 de agosto de 2006 foram extintas as penas alternativas para os agressores: pagamento de cestas básicas, trabalhos comunitários, etc., ficando em seu lugar a prisão para os casos de violência doméstica. Outro ponto importante da Lei é que a vítima não pode mais retirar a queixa, mesmo quando ela não quer mais prosseguir com o processo, que tramitará à revelia dela.
Pontos positivos e pontos negativos existem e poderiam ser elencados neste breve texto; porém, o mais importante é afirmar o valor da Lei Maria da Penha, tanto no âmbito jurídico e policial quanto como simbólico.
Nestes três anos a 11.340/06 não passou incólume de críticas e tentativas de desvalorização do seu teor legal, mas ela segue firme e forte como um dos instrumentos mais poderosos contra a violência doméstica à mulher.
Nós, feministas, estamos vigilantes e cobramos do Estado todos os subsídios e insumos necessários para que a Lei 11.340/06 - LEI MARIA DA PENHA - seja cumprida na íntegra.

SALVE LEI MARIA DA PENHA, TRÊS ANOS TRAZENDO JUSTIÇA ÀS VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, ACABANDO COM A IMPUNIDADE HISTÓRICA.


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Liz Motta
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Sobre
Bahiana e historiadora. Especialista em políticas públicas, produz artigos sobre violência contra a mulher.

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