Uma maravilha fincada no deserto, nordeste da África e vitalizada por um outro encanto chamado Nilo. O Nilo é bonito e tem personalidade.
Ele fala... ele vive!
Há uns 8.000 anos o Nilo começou a esculpir-se em sua forma definitiva. Uma gigantesca serpente saindo do coração da África, correndo paralela ao Mar Vermelho e passando com elegância num bonito delta para o Mar Mediterrâneo.
E um povo impressionante, os antigos egípcios há uns 4.000 anos AC aprenderam a usar as águas das cheias do Nilo e o Sol (água e fogo) e em milhares de quilômetros às margens do Nilo coordenaram um magnífico trabalho agrícola! O deserto floresceu em trigo. O Egito ficou poderoso. Os antigos diziam que “quem bebe da água do Nilo sempre volta”. Desnecessário. O Nilo é um estado de espírito. Você chega lá e daí ele fica com você por onde você for.
Uma experiência de vida.
O fascinante é que a vida a morte e a história passeiam de mãos dadas pelas cidades e sentam-se para conversar nos monumentos e areias do Saara. Há no Egito uma religiosidade sólida tipo grande pergunta que se impregna na gente. Passeando por um templo ou andando pela rua se você vir a morte caminhando ao seu lado, não ligue. Ela não é tão feia assim e anda triste com a discriminação descabida feita à ela que durante tantos e tantos milhares de anos têm cumprido sua função com esmero e amor. Pobrezinha! Dá dó de ver.
No oposto das religiões orientais em sua maioria, os egípcios criam e crêem no indivíduo criado e quando ele morre sua alma não se dilui no todo e sim continua e fica passeando, zanzando por lugares impressionantes em muitas dimensões e um dia com saudades do corpo dentro do qual foi esculpida, volta. Mas para reconhecer o velho casulo onde viveu, amou e aprendeu tanto, o corpo deve estar preparado! Nas urnas com aquela ortografia tão bonita está a história do moço! Onde nasceu; coisas que gostou. Atos, religião, função na sociedade, o nome do cachorrinho de estimação, o time... e tudo que é essencial. Daí ela, a alma aventureira, volta, olha e vê: “Ah, esse sou eu, pô!” A arte de embalsamar corpos para a volta da alma chegou a máximo no Egito. Demorava setenta dias na Casa da Morte. O único problema na CM é que era uma instituição do governo e gerida por sacerdotes! Imagine...
E todos os extintos levavam alguma coisa consigo... Os mais ricos o exuberante: jóias, carros, brinquedos e muitos e muitos dólares. Os pobres, para variar, muito menos... Davam graças a Amon por serem embalsamados (depois de pagar a vida inteira por isso) e levarem escondido um pequeno escaravelho para dar sorte e olha lá!
E havia cerveja na maioria dos túmulos e eles criam que a tomariam na Terra do poente. Uma eternidade com uma cerveja que não faça mal, não dê porre e nem engorde! Indescritível...
Há no Egito uma imensa pergunta: a eternidade! Ela não é questionada de um modo geral... a dúvida é se com tudo o que se pode fazer a gente salta para lá e vive no eterno. Os Egípcios não valorizam tanto a morte e sim pensam na eternidade e na ressurreição!
Uma gravura fantástica é a versão egípcia do Juízo Final de Michelangelo. Uma balança e num dos pratos coloca-se o coração da pessoa. No outro uma pena. Se o coração do cara estiver pesado de iras, remorsos, raivas, apunhalamento de amigos pelas costas, amor ao poder e outros, a pena sobe, o coração é devorado e a alma se perde no mundo da morte. Se o coração estiver leve e houver equilíbrio com a pena ele passa para a ressurreição junto com Osíris.
É, um coração leve é bom em qualquer cultura do mundo. E para a saúde também.
Grandes guerreiros estrangeiros passaram, lutaram viveram e alguns morreram no Egito.
A Babilônia invadiu o Egito. Mas foi vencida por Alexandre o Magno que foi lá e encarou os babilônios. Alexandre foi entronizado Faraó e virou um deus no Egito! Ele gostou muito e como já era o magno... imagine depois.
O Egito quase foi tomado pelos Hititas um povo feroz que tinha um só deus, “o” tempestade e achava que o sol era feminino... Você já pensou no sol sendo uma mulher? Não! Eles sim. Quem sabe se eram tão brabos assim por isso. Uma mulher pode ter o brilho do sol o que a deixa mais bonita... Mas nunca ser “o” sol. O que é isso meu Deus... Os hititas não estavam com nada. (1)O Egito foi salvo por Horemheb numa série de batalhas magníficas.
Muitos e muitos outros. Sem esquecer dos romanos no ocaso do Egito antigo.
Mais modernamente Napoleão discursou - tendo as pirâmides às suas costas - para suas tropas cansadas e loucas para voltar a França e comer baguetes com um bom vinho. Bom mesmo!
Alemães e ingleses mediram forças no Egito na Segunda Guerra e quase morreram e muitos morreram (também) do calor do deserto dentro dos tanques.
Quem serão os próximos?
E o Egito continua lindo e misterioso.
Nosso guia, um egípcio simpático que fala um portunhol quase perfeito foi ótimo. Ele passava a mão carinhosamente pelos desenhos, esculturas e hieróglifos e contava histórias e mais histórias! Nos chamava de “família”, pedia atenção e contava... contava. Quatro dias convivemos. Dei a ele um exemplar do AMOR MAIOR autografado e vamos ver se continuamos a viagem por e-mails agora que um pouco do Nilo está aqui.
Três dias navegamos pelo Nilo. Sublime. Lindos pores do sol e grandes papos na cobertura do barco sobre tudo e mais um pouco e a vida. Magia. Viajamos pelo Nilo de Assuan a Luxor. Luxor? Não, para mim é Tebas! Eterna Tebas. Passeamos pela Avenida dos Carneiros por onde Horemheb e Sinuhe o egípcio caminharam preocupados sobre onde tudo iria parar com a idéia maluca do Faraó Aknaton da existência de um só Deus e um mundo onde todos seriam iguais perante Ele... Que coisa!
Faltou um cafézinho na Avenida dos Carneiros, mas nada pode ser perfeito.
De Luxor fomos a Paris. Uma outra história.
P.S. (1)- Os hititas também tinham muito medo de olhar a lua! Ela só deveria ser contemplada de vez em quando por pessoas poderosas e de preferência não por muito tempo. Definitivamente eles não eram românticos!
Leila, no conto sobre a Clarice você foi demais! Escreveu bem, ajudou a pensar, remoer... Ver melhor.
Sabe que eu faria até milagres por um tempo com a Clarice? Um barzinho. Tomaria qualquer coisa! Gengibirra, água mineral, suco de cenoura ou até um cálice de vinho tinto; tudo para ouvi-la horas! Nunca vi tanta capacidade em colocar numa frase curta um mundo onde fluem conceitos, emoções e beleza.
Para mim a beleza é fruto da fruição.
“Minha força está na solidão. Não tenho medo de chuvas Tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite”.
“Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
Clarice Lispector
Viver!
Para formular pensamentos assim ela devia ser uma deusa, um ser humano magnífico, com perguntas essenciais e sensibilidade para buscar a vida mais alta, mais humana e por isso mesmo... divina.
Na entrevista ela disse que o homem é um ser solitário e triste. Finalmente alguém que entende a gente! Puxa, demorou... Sei que nós, homens, estamos em extinção. Fico bestificado que não acabamos ainda. E olhe que somos legais até. Pelo menos eu e meus amigos!
Os outros, não sei.
A Clarice disse que não era só - tinha amigas... Mas contou que a força que a animava estava na solidão. A solidão tem dois lados como a lua... Um claro e o outro sombrio.
Você, Leila, desnudou a solidão sombria nos seus sentimentos ao constatar o arremedo de vida que vemos hoje em dia. A solidão sombria é ver e sentir no ser humano a falta de ideias e conceitos elevados. Falta de buscar respostas para perguntas essenciais! O Homo sapiens acabou por dentro e logo quando morrer por fora vai ser apenas uma questão de burocracia; um número vai sumir das instituições de crédito, lista de eleitores e de alguma estrutura religiosa que não vai empobrecer por causa disso.
A solidão clariceana é positiva. Mas, a sombra vem – a Clarice não soube administrara chegada da sombra e pouquíssimos o sabem - quando se percebe que não se pode mudar nada! E nada muda. Impotência mortifica a quem tem ideias e sensibilidade.
Porque não buscar aqueles que têm o mesmo sentimento e multiplicar numa gestação de raciocínio a outros que tenham o anelo em viver e pensar? Porque perder vida e tempo com a turba que vive de rótulos? A solidão positiva ganha calor quando percebemos a luz de criatividade que existe em buscar os que vivem e lutam para pensar!
A Clarice foi brilhante, sublime e, quem sabe, sua grande sensibilidade não a deixou ver o lado mais claro da solidão, como falou a Priscila, o jeito de “acordar as pessoas” que desejam ver o mundo de um outro modo.
É uma ideia: buscar pessoas que queiram acordar... Uma paixão nova!
Quem quer mudar o mundo já se crucificou de cabeça para baixo e não vai ressurgir. Quem busca poucas pessoas que querem mudar, muda-se e muda alguma coisa no mundo e isso se multiplica.
O dinâmico, empreendedor e controverso Saulo de Tarso, numa carta ao seu grande amigo de anos e viagens, Timóteo, disse:
“... O que você me ouviu falar na presença de muitas testemunhas, confie-as a pessoas fiéis que sejam capazes de ensinar outros”.
O Saulão sabia das coisas! Garoto.
Nada de bandos e sim andar com poucos que - como intuiu a nossa filósofa Priscila Leal - “queriam acordar”.
Adoraria contar para a Clarice que ela não estava sozinha. Há mais – não muitos, mas mais – seres humanos que pensam e se apaixonam por ideias em todas as áreas!
El Salvador. Vários anos que forças do governo e guerrilheiros rebeldes lutavam uma guerra civil brutal. Durante o conflito uma facção do exército e extremistas raptaram e mataram milhares de pessoas. Uma jovem advogada Marianella Garcia Villas formou um comitê de direitos humanos para investigar o desaparecimento e tortura de pessoas. Foi para a “lista negra” dos terroristas e ela sabia o que isso significava: sua vida estava por um fio. Em 1.980 escreveu uma carta contando o que a motivava:
“Eu luto pela vida: um trabalho real que vale a pena. Não tenho nenhum desejo de morrer, mas já vivi tão perto da morte e de suas conseqüências que a vejo agora de um modo natural. Todos nós devemos morrer um dia, mas a morte sempre virá cedo demais para um homem ou a mulher que tem uma intensa sede de viver. Cada minuto que passa tem um significado, uma profundidade maior do que qualquer outra coisa, mesmo que pareça comum e rotineiro. Cada rajada de vento, cada canto da cigarra, cada revoada de pombos é como um poema.
Sei que os que trabalham pela justiça sempre terão o direito ao seu lado e receberão a ajuda de Deus; estes irão prevalecer, e a verdade resplandecerá.
É melhor ser rico de espírito do que em bens materiais”.
Em março de 1.983 Marianella foi assassinada.
Há um cântico no mundo, um poema para Clarices, Marianellas, outros e outras!
Clarice foi uma escritora finíssima e uma pensadora das melhores. Não uma filósofa com uma visão livresca, especulativa-emperequetada do mundo! Mas, uma mulher que pensava, sentia e comunicava em ritmo de magia pessoal.
Melhor... vamos deixar que ela se mostre.
“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”
Senhor, a Irritação Nossa de Cada Dia não Nos Dai Hoje!
...Elas vêm assim mesmo.
Hoje estou irritado. Acontece. Acontece... Não ligue. Passa.
Vi muitas páginas sobre o Michael cruzando o espaço ainda com os sons dele! Vieses, pontos de vista, depoimentos. Tudo cantando a criatividade do moço, a influência dele; sua vida e mensagem. Dançando a vida dele com os passos dele. Acrescentei o meu depoimento também aqui no blog.
E recebi um e-mail de um conhecido que escreve. Li. Descaiu o meu semblante! Que chato! Ele puxou os momentos difíceis da vida do Michael com a tonalidade escura da crise, problemas, acusações... Pareceu-me que estava não à vontade com o fato que tanta gente gosta tanto do garotão! Pisoteou. Estabanou ruins para todos os lados! E sentiu se um deus em “pôr o dedo na ferida”. Coisa mais chata... Eles – os que olham o errado, e só o errado - têm a SCM. Síndrome do Consertador do Mundo. Ridículo! É maledicência... ou seja a capacidade de falar mal, levantar o mal, só ver o mal, respirar o mal. Sentar-se no mal, dedar o mal. Mal, hein?
Maledicência...
Depois vi que o meu conhecido é Homus religiosus e isso explica um pouco. Há exceções, mas o religioso, de modo amplo, é um ser que, mergulhado em culpas e extratos do mal, imagina que têm uma fórmula mágica para salvar os outros... “os outros”, sacou? Acho que eles têm a alma na forma de uma lista – que pode até ser tirada da bíblia e outros bons textos – através da qual olham o mundo, o julgam, sentenciam e adorariam sentar se no trono dos executores do direito criado por eles até usando coisas boas, mas fora do contexto.
É mole?
Uma pessoa deveria ser lembrada pelas páginas fascinantes e importantes que fez, escreveu, cantou esculpiu ou compôs! Cada criação forjada assim é um degrau por onde podemos ascender para uma criatividade mais nossa.
Deletei a algaravia do cara com um pensamento brincando na minha mente.
Veja só. Imaginei Deus chegando na casa dele de calça jeans, tênis e uma bonita camiseta onde se lê: “CRIAR É TUDO DE BOM”. E, sentando-se numa poltrona, (pondo os pés encima de um banquinho) rindo alegremente e falando:
“Cara, que legal. Olha, resolvi pôr num clipe todos os pensamentos ocultos da sua mente e mostrar para a galera! Oh meu!... Afinal você gosta tanto de coisas direitinhas...”.
Curitibano, dentista por profissão, filósofo por opção. Publicou o livro Descanso do Homem em novembro de 2005.
Coluna
Mitologia
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